Num mundo globalizado, acelerado e amplamente conectado, aliado à baixa qualidade de vida, à sensação de insegurança experimentada pelos cidadãos das grandes cidades, pouco tempo para o lazer e exigências cada vez maiores no trabalho, o adoecimento por doenças mentais tem sido crescente. Estabelecer uma relação dos transtornos mentais e a atividade laboral é o maior desafio dos serviços de engenharia e medicina do trabalho das grandes empresas, que se deparam com cada vez mais trabalhadores depressivos, alcoólicos, ansiosos, entre outros males. Para se ter uma ideia, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já estimou que até 2020, os transtornos mentais serão a segunda causa de afastamento do trabalho no mundo.
Em algumas grandes cidades, no entanto, esta realidade já foi evidenciada. Durante o 3º Fórum de Saúde e Segurança do Trabalhador da Saúde, realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas correlacionados (NEPES), em parceria com o SINDHOSP no último dia 26 de agosto, profissionais destacaram dados que revelam uma preocupante “psiquiatrização da vida moderna”, com conseqüências drásticas para o mercado de trabalho.
Segundo a psicóloga Myriam Cristina Maziero Vergueiro da Silva, do Serviço de Segurança e Medicina do Trabalho do Hospital das Clínicas de São Paulo, ambientes de assistência à saúde podem levar mais facilmente a situações de estresse, o que pode facilitar o surgimento de doenças mentais. “No HC, por exemplo, apesar de as doenças mentais não ocuparem o primeiro lugar dentre os motivos de afastamento, elas são as que geram os afastamentos mais longos e maior dificuldade de retorno do trabalhador”, afirmou.
Entre os transtornos mais recorrentes entre os trabalhadores estão a síndrome do estresse pós-traumático e as síndromes ansiosas.
Myriam ainda citou a “violência da excelência” como fator que pode gerar mais estresse no ambiente de trabalho das instituições de saúde. “Os programas de excelência pressionam o trabalhador para o alcance de metas e a conquista da certificação”, exemplificou.
Para o psiquiatra Flavio Gosling, que também atua como médico perito da Prefeitura de São Paulo, não há dúvida de que há relação entre a doença mental e o trabalho. A dificuldade, no entanto, é estabelecer de forma correta o nexo causal da doença, uma vez que diversos fatores podem estar relacionados ao surgimento de um quadro de depressão, por exemplo. “Na psiquiatria não existem exames. Não é a mesma coisa que fazer uma audiometria e comprovar que determinada atividade prejudicou a audição de um trabalhador que foi exposto a ruído. A doença mental tem que atingir o corpo e gerar reações psíquicas. Parece obvio, mas na pratica não é”, disse.
Além da dificuldade de se estabelecer uma relação entre a atividade laboral e o surgimento de uma depressão, por exemplo, existem os casos de simulação. “Pacientes que simulam são uma dúvida muito frequente para os psiquiatras ocupacionais. E se a gente entende a simulação como também uma maneira de se comunicar, complica mais ainda. Porque a simulação pode ser perversão, psicopatologia, histeria”, exemplificou o psiquiatra.
Os participantes ainda destacaram a importância de instrumentos capazes de detectar a prevenção de doenças mentais nos trabalhadores, como a criação de grupos que compartilhem experiência, e do aprimoramento dos exames periódicos.
Para Mário Bonciani, diretor do NEPES, é preciso que o médico do trabalho abandone a visão “cartorial” do exame periódico e seja capaz de detectar sinais de algum transtorno mental. “A Medicina do Trabalho em geral não tem um projeto de recepção e acolhimento para transformar o exame periódico num processo preventivo e de detecção de transtornos mentais”, criticou.
As palestras e os debates ficaram sob a coordenação de Marcelo Pustiglione, médico do Trabalho, chefe do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança em Medicina do Trabalho do Hospital das Clínicas (SESMT HCFMUSP). Também esteve presente o diretor financeiro do NEPES, Edison Ferreira da Silva, representando as instituições filantrópicas. A advogada do SINDHOSP, Lucinéia Nucci, também esteve no evento.
Publicado em 03/04/2012