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Palavra
do Presidente |
| Março/2007
Assistindo pela televisão aos preparativos para a visita, junto das iniciativas de segurança intensa e onipresente, ruas bloqueadas, diversos políticos externando seus pontos de vista, o etanol e a produção que salvará o planeta – apresentado como a grande estrela da visita - também estavam as inevitáveis manifestações repletas de jovens vestidos de vermelho, que pararam ruas importantes com a palavra de ordem: "fora Bush". Imediatamente lembrei da minha mocidade na década de 50, quando da visita do então presidente americano Dwight D. Eisenhower, recebido com pompa pelo presidente "bossa nova" Juscelino Kubitschek. Um amigo médico, recém formado como eu, estava indignado. "Os Estados Unidos sempre oprimiram o Brasil, mandam e se metem em tudo. Por causa disso, nós, como país, não temos autonomia para nada". Nem adiantava argumentar. Bradava entusiasmado: "Precisamos fazer algo, protestar, fazer com que nossa voz seja ouvida". Outros conhecidos e ele, algumas economias reunidas e uma viagem tranqüila por uma rodovia recém inaugurada e chegaram ao Rio para externar seus pontos de vista, de preferência fazendo muito barulho. As semelhanças entre aquelas lembranças e o que vi na televisão eram quase totais, nem parecia que mais de 50 anos separavam aqueles dois momentos. Digo "quase", porque sou obrigado a admitir que os garotos daquela época eram mais respeitosos, nunca falavam palavrões em público e na frente de senhoras e eram infinitamente melhor humorados. Para se ter uma idéia do que eram os protestos, cantavam a marchinha de carnaval "Ei você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí" a plenos pulmões na calçada defronte ao Copacabana Palace, hotel onde o presidente americano estava hospedado. Mas pelo que se protesta mesmo? Alguns telejornais fizeram essa pesquisa aos manifestantes. O silêncio das respostas é ensurdecedor. Poucos conheciam sequer quem era o presidente ou o que ele teria feito de tão prejudicial a todos nós. Penso em duas coisas: de quanto é mais fácil culpar os outros pelas nossas falhas e omissões, nunca aceitando que somos nós os responsáveis pelo nosso estado de coisas - é muito mais fácil culpar um outro por nossas responsabilidades, e que esse pessoal pouco aparece quando devemos protestar, veementemente, contra a situação da saúde, segurança e educação. Bom, existe uma coisa boa nisso tudo. Meu caro amigo que protestava na década de 50, hoje é um destacado e competente ginecologista de Presidente Prudente, com um casamento feliz e cercado de netos. É um consolo. Ou não? Um forte abraço, Dante Ancona Montagnana |