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Palavra
do Presidente |
| Outubro/2007 "O veneno que mata é a droga que salva" Outro dia li um brilhante texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de centenas de artigos e ensaios sobre política. Chama-se "Paradoxos" e é um excelente exercício de reflexão na busca diária de compreender o complexo mundo em que vivemos. Vamos a ele: "A metade dos brasileiros é pobre ou muito pobre, contudo o Brasil é o segundo mercado mundial das canetas Montblanc e as lojas Armani de São Paulo vendem mais que as de Nova York. Na América nasceram, não na Índia, nossos índios. Também o peru e o milho nasceram na América, e não na Turquia, porém a língua inglesa chama turkey ao peru e a língua italiana chama granturco ao milho. Anos atrás, o jornalista Richard Swift chegou aos campos do lado oeste de Gana, onde se produz cacau para a Suíça. Em sua mochila, o jornalista levava algumas barras de chocolate. Os cultivadores de cacau nunca haviam provado o chocolate. Ficaram encantados. As vacas do norte ganham o dobro que os camponeses do sul. Os subsídios que recebe cada vaca na Europa e nos Estados Unidos duplicam a quantidade de dinheiro que em média ganha, por um ano inteiro de trabalho, cada criador dos países pobres. Os produtores do sul se socorrem desunidos ao mercado mundial. Os compradores do norte impõem preços de monopólio. Desde que em 1989 encerrou-se a Organização Internacional do Café e acabou-se o sistema de quotas de produção, o preço do café anda pelo nível do chão. Nos últimos tempos, pior ainda: na América Central, quem planta café colhe a fome. Porém, não se tem baixado nem um pouquinho, que eu saiba, o que se paga para bebê-lo. Carlos Magno, criador da primeira grande biblioteca da Europa, era analfabeto. Joshua Slocum, o primeiro homem que deu a volta ao mundo navegando em um barco solitário, não sabia nadar. O progresso engorda. Rarotonga é a mais próspera das ilhas Cook, no Pacífico sul, com assombrosos índices de crescimento econômico. Porém mais assombroso ainda é o crescimento da obesidade entre seus jovens do sexo masculino. Há 40 anos eram gordos 11 em cada 100. Agora, todos são gordos. A frase mais famosa atribuída a Don Quixote ("Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos") não aparece na novela de Cervantes; e Humphrey Bogart não disse a frase mais famosa atribuída ao filme Casablanca (Play it again, Sam). Contra ao que se crê, Ali Babá não era o chefe dos 40 ladrões, e sim o seu inimigo; e Frankenstein não era o monstro, e sim seu involuntário criador. À primeira vista, parece incompreensível, e à segunda vista, também: onde mais evolui o progresso, mais horas trabalham as pessoas. A enfermidade por excesso de trabalho conduz à morte. Em japonês se chama karoshi. Agora os japoneses estão incorporando outra palavra ao dicionário da civilização tecnológica: karojsatsu é o nome dos suicídios por hiperatividade, cada vez mais freqüentes".
Um forte abraço, Dante Ancona Montagnana |